terça-feira, 27 de setembro de 2016

Práxis de uma defesa constante

No final de agosto, durante um curso no trabalho, um colega, após ser apresentado ao meu blog, me perguntou em tom bastante jocoso o porquê de eu ser tão séria nos meus textos. Ele também questionou o nome do blog e o fato de eu não incluir fotos minhas de biquíni, podendo, por conta disso, trocar o nome dele para Práxis de uma moça sexy.

Mulheres ao redor soltaram risadinhas e, quando argumentei de maneira defensiva, algumas me disseram para atenuar a minha reação, pois se tratava apenas de uma brincadeira do colega. Até que ponto um machismo encoberto de falso humor deve ser encarado simplesmente como uma jocosidade? Sobretudo quando o comentário demonstra total falta de respeito com o lado intelectualizado da mulher.

Meu cérebro sempre tendeu a ser muito mais criativo e crítico do que os da maioria de minhas colegas. Isso faz de mim um ser mais evoluído e consequentemente um ser esnobe e prepotente? Ao menos é essa a questão implícita do macho-alfa quando me leva a acreditar que devo expor minha carne ao invés do meu intelecto. Para quê pensar quando se é mulher, não é? Afinal, dá uma sensação de empoderamento e isso é necessariamente ruim, ao menos quando se nasce com útero e ovários.

Essa práxis constante de ser doutrinada a pensar menos e se exibir mais é não apenas um embrulhar de estômago mas um câncer social que se espalha e se enraíza mais profundamente, mesmo em uma contemporaneidade avassaladora em termos científicos e tecnológicos. A mim é paradoxal perceber uma constante evolução técnica e um paralelo e crescente retrocesso social. E ninguém precisa ser um Bolsonaro (símbolo-mor brasileiro da representação do que há de pior na luta contra o ser feminino e o ser humano) para ser considerado um machista inconveniente (ok, há redundância no adjetivo, mas a ênfase se faz necessária).

Uma sociedade retrógrada não se faz com vestimentas pesadas, uso de bastões de madeira ou vivência em cavernas. Ela acontece justamente com a adesão de valores primitivos nivelados à bestialidade. Alguns dos comentários a seguir foram proferidos por homens e, sobretudo, mulheres em diferentes situações de minha vida, direcionados ou não a mim.

"E aí, já casou? Tem filhos?". "Você tem que arrumar alguém para casar logo, porque com 30 anos a história começa a mudar, viu?" "Você é bonita, não deveria ter dificuldade para arranjar alguém". "Tão nova e tão séria, você não deveria ser assim." "Você é muito corajosa de viajar sozinha e de morar só." "Querida, foi você que fez o suco? Está uma delícia. Que mais você sabe fazer?" "Não seja tão agressiva, homens não gostam de mulheres assim (após se pronunciar politicamente em uma conversa)." "Você tem 30 anos? Pretende ter filhos quando? Porque sabe, né? Os óvulos..." "Essas mulheres feministas são umas frígidas machonas." "Você tem que se arrumar mais, homens não gostam de mulheres que não se cuidam." "Graças a Deus você conseguiu alguém, agora vê se não faz nada de errado, hein? Porque você sabe como está difícil arranjar homem hoje em dia." "Hoje fiz almoço de novo, foi uma manhã bem puxada, mas meu marido só gosta de comida fresquinha. Mas quem não gosta, né?" "Você gosta de cozinhar pra você mesma? Como assim? Cozinhar é sempre melhor a dois, com um parceiro"... e tantas outras conversas fiadas que um ser feminino escuta ao longo de sua vida.

Um(a) machista comum, não do tipo extremista, é aquele ou aquela que acrescenta a conjunção "mas" logo após dizer que apoia as mulheres. "Sou a favor da causa feminista, mas tem mulher que é difícil demais." "Sou contra a violência doméstica, mas tem mulher que pede para apanhar." "Não sou machista, mas já ouviu a nova piada da loira burra?".

Esse cenário dói. Na alma, no coração, na espinha dorsal. Quem sustenta comentários a priori defensivos incorporados de "mas" declara-se incapaz de qualquer raciocínio argumentativo. Quem apoia não diz "mas". Quem apoia faz, é, age. Não dispara flechas enquanto sorri em tom de amarelo.

Ser mulher é mais do que vestir uma calcinha, pôr um sutiã e escolher o estilo de penteado do dia. É sair de casa diariamente, ou ligar o computador, com um mínimo de preparação para ser alvo de piadas, comentários machistas ou cobranças sociais. Além do constante medo de ser estuprada na rua, levar cantadas grosseiras (que geralmente nos comparam a comidas) e com isso sentir-se intimidada, ou ser ameaçada na internet (como nos casos de Letícia Sabatella e Joanna Maranhão) e ter que escutar de "autoridades", como o chefe de Estado pernambucano (leia aqui), que a culpa por tudo isso é da mulher.

Por essas razões, medos, embates e questionamentos frívolos e arcaicos é que seguirei sempre defendendo que ser mulher é como ser defensora pública em causa própria, 24 horas, enquanto sobrar ar nos pulmões. A labuta é pesada e o reconhecimento social praticamente não existe. Porém, o provento suado chega com rendimentos tímidos mas necessários para que o ser mulher não chegue a entrar numa lista de espécie em extinção, com direito a fotos em pôsters dos aeroportos.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Dor do ontem, medo do hoje

Ontem chorei copiosamente por conta de uma dor de cabeça tão forte que não me deixava enxergar e pisar direito. Hoje de manhã, encontrei quatro fios de cabelo branco em meio ao meu vasto volume (e alguns brotando na franja).

Ontem tive medo de participar de uma estatística que apenas aumenta, a de pessoas jovens que sofrem um Acidente Vascular Cerebral. Hoje receio pela vida com a qual estou lidando diariamente. A cultura do medo encravada no peito me faz refletir: que bulhufas estou fazendo da minha vida? Ou além, o que diabos estamos fazendo das nossas brasileiras vidas?

Pago regularmente minhas contas, sou uma cidadã extremamente responsável em termos pessoais e profissionais, respeito o próximo e quem está longe (piada leve apenas para não perder a veia sarcástica), desejo o melhor dos mundos aos que me fizeram algum mal, planejo sonhos, mas me vejo em um redemoinho interminável de dores de cabeça fortes o suficiente para tirar meu equilíbrio e meu chão.

Não, não estou bem. Admito isso a mim mesma. Não quero ser mais uma a encobrir a verdade interna. Não gosto dos rumos do meu país (por mais que eu queria o tempo todo justificá-lo com frases do tipo "eu avisei" ou, pior, "bem feito"). Não gosto de trabalhar como chefe substituta justificando o enxugar de gelo diário (cuja geleira só faz aumentar) pelo pouco dinheiro a mais que receberei no final do mês.

Não gosto de mentir para mim mesma ao dizer que a melhor saída para o estresse semanal é imergir no Netflix. Não gosto de ver minha família toda se digladiando reiteradamente por conta de orgulhos feridos. Não gosto de fingir diplomacia quando alguém machuca propositadamente minha opinião. E não gosto de me sentir cada vez mais afastada da minha melhor versão, aquela da moça colorida de otimismo.

Eu não vou também justificar a minha fé ou a falta dela. Não quero usar Deus como ópio. E critico honestamente quem o faz. Respeito-os, porém não compactuo com a ideia. O meu Deus, já há algum tempo, vem sendo a música. Para chorar, sonhar, refletir e acreditar. Egoísmo de minha parte? Não acredito. Se temos o direito ao livre arbítrio por que não desfrutá-lo? Afinal, prefiro refutar-me da ideia de ter prazer real numa barra de chocolate belga (até porque cacau não combina com dor de cabeça) para aliviar uma sensação de "pagar pecados pregressos".

O agora me faz remeter ao tempo da aposentadoria. Quando tiver tempo livre para viajar à vontade, viver para a música, morar na Europa (um sonho antigo), sentir a respiração menos apressada, sorrir menos para a tela do computador e mais para pessoas, desconhecer o uso recorrente da palavra medo e voltar a querer levantar da cama cedo sem o resto da energia do dia anterior ter se esvaído (recarregada menos com a visão de um distante futuro e mais com o presente, o agora).

Nos últimos meses, minhas visitas aos médicos se tornaram frequentes, bem como as licenças médicas. E isso seriamente me preocupa. Estou cansada de caçar desculpas externas quando claramente a medicação não está na farmácia. Meu ego precisa desse anti-inflamatório emocional, mesmo que tenha consequências para outros órgãos (como usualmente as tem). Às vezes é preciso provocar algo em benefício do todo. Do meu todo. Para que a dor do ontem não se torne o medo do hoje.

Trilha sonora do momento: Long nights (Eddie Vedder), da impactante história  real de Chris MacCadless (filme biográfico: Na Natureza Selvagem). Para tradução da letra: https://www.letras.mus.br/vedder-eddie/1095185/traducao.html

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Animais racionais


O que difere o homem dos outros seres vivos? Nossa capacidade de organização social? Nossas casas e carros? Nossas redes sociais e smartphones? Sabemos que tudo isso se resume em uma só diferença que aprendemos desde os tempos de escola: a capacidade de raciocinar. Por isso é que somos considerados seres racionais, não é? Não entrarei no pormenor da inteligência, pois todos os seres vivos, irracionais ou nós, possuem tal capacidade, sendo compreendida de diversas maneiras.

Meu ponto, neste momento, é questionar a tal diferença. Se provamos, científica e empiricamente, a singularidade da razão humana por que insistimos em negá-la? Vivemos num mundo doente, como nos avisou Renato Russo. E a mais devastadora doença atual, em meu singelo ponto de vista, não se trata da epidemia do zika vírus, chikungunya ou dengue. Não. Ouso dizer que o desprezo pelo raciocínio é a nossa pior praga. Algo no nível da peste bubônica que devastou a Europa durante a Idade Média. Só que o estrago da peste atual parece bem pior em termos prospectivos.

Em qualquer cenário podemos tirar a prova disso. Cito-lhes dois de diversos exemplos recentes: um político e um musical. A respeito do primeiro ponto não exporei o que acredito ser o melhor viés. Vejo-me numa categoria reduzida em termos quantitativos. Seja em nível municipal ou federal. Sou diariamente pressionada a acreditar que não devo ter ponto de vista. Devo assimilar argumentos vomitados diariamente nos meios de comunicação de massa e simplesmente aceitar a realidade de argumentos que me fazem remeter aos capítulos dos livros de História que falavam sobre a ascensão dos Regimes Nazista e Fascista. 

Sou mulher, hétero, branca, classe média e de esquerda. Meu posicionamento político não se baseia em livros ou em um padrão hereditário, mas em um ser social mais democrático. Mais humano. Não partidário. Isso não significa que não divirjo dos meus pares; um pequeno grupo, mas (bravamente) resistente. Sou ser humana. Descartes já nos esclareceu a lógica: "Penso, logo existo". E pretendo seguir existindo e usando meus neurônios por bastante tempo.

Sobre o exemplo musical acontece a mesma estratégia adversária do questionamento em discordar. Como assim não gosto de música sertaneja, apenas tolero-a? Como assim não canto MPB, se é a minha cara? Como assim não canto o que as pessoas querem, apenas o que gosto? Como assim tenho o direito de achar algo cafona? 

É possível ser livre em tempos de ditadura do pensamento? 

Todas as provas de uma vida melhor estão aí para serem compradas a um preço razoável: apenas suaves prestações em negar ser humana. Nego a minha vontade de questionar e de buscar uma visão diferente do habitual (como seria o inabitual?) e recebo a proteção contra olhares nervosos, bocas inflamadas com vocabulário replicado de redes sociais e contra uma sensação de estranheza social. Melhor aceitar a bela oferta, não? Ser feliz em troca de ser uma ausente racional.

Esse tópico não é novo neste blog. Já o abordei relembrando um princípio da lógica chamado "ad populum". Funciona como uma daquelas propagandas da Ricardo Eletro ou das Casas Bahia. Traduzindo: todos estão indo para lá, então devo ir também. Todos pensam assim, então devo fazer o mesmo. Afinal de contas, não é gentil para com os outros ser uma rejeitada social. 

Ser gentil com os outros. Não magoá-los. Ser aceita. 

O medo da segregação nos aflige, não é? Sentimos a necessidade instintiva em pertencer a um grupo. É mais fácil rir em conjunto, ter ombros amigos, tapinhas nas costas e mais curtidas garantidas no Facebook. 

A minha sensação constante, e nauseante, é de que não basta sermos um ser sociável em constância. Temos que aceitar e reproduzir padrões. Estéticos, políticos, musicais, comportamentais, emocionais. E se não o fizermos estaremos condenados ao exílio da sociedade brasileira. A sentença é transitada em julgado sem qualquer direito à defesa, com base nos princípios difundidos pela sociedade de seres felizes em ser replicantes. 

Doze Homens e Uma Sentença (versão de 1997). Um filme que mostra valer a pena pensar fora do que é "lógico".

Sinto desapontar-lhes (quer dizer, já senti, mas há algum tempo não o sinto mais)... Prefiro a liberdade do questionamento à fé cega em temer a reprovação alheia. Com isso, não me isento do que já cometi, cometo ou cometerei em relação às escolhas de outras pessoas. Sou humana, afinal. Apenas sou um entre os 12 que não acusariam, de pronto, o jovem latino no extraordinário e brilhante filme "12 Homens e uma Sentença (Twelve Angry Men)". Sou o personagem de Jack Lemon, na versão de 1997 (a melhor, para mim), que, a meu ver, representa muito bem a ideia da Filosofia e seu poder em nos lembrar de ser humanos, de questionar, de raciocinar.

Não gosto de absolutos. Nem da palavra, nem do conceito. Incomoda a garganta e impõe limitação à mente. Aprisiona. E de prisões o mundo real já está cheio. Não preciso me encarcerar em uma mental. Precisamos de mais liberdade de raciocínio. Isso não significa sair por aí pregando verdades particulares. Apenas, reconhecer-se e ser, livremente, um animal racional.

Teatro dos Vampiros (Legião Urbana). Música, para mim, que liberta.

sábado, 7 de novembro de 2015

Galeria francesa

Créteil (França) - um dos cenários que inspirou o texto abaixo

Há alguns dias, honrei minha presença, pela terceira vez, no lugar ao qual pertencem meu coração e minha segurança musical. Tão logo o freio de pouso sublimou minha paixão aguçada pela luz de lembranças terrenamente inexplicáveis, o cansaço das quase 14 horas de trânsito aéreo esvaiu-se como num despertar de um sono doce e profundo.

Dali para os próximos 15 dias, houve aventuras previstas, mas nada tão estritamente calculadas. E mesmo diante de vai e vens de novas lembranças a se formar, em cenários diferentes de vistas anteriores, minh'alma ratificou o desejo de regressar sempre àquela que me energiza e me faz preencher rios internos de esperanças.

Por entre as caminhadas apaixonantes, mesmo no fluxo constante das agitações urbanas, a paz lembrava de aparecer e de sorrir. Dentre olhares sublimados de encantamentos, o meu encontrou uma citação constante que resumiu a ópera da minha passagem: "Decidi ser feliz porque é bom para a saúde". Com base em Voltaire ou não, a decisão já estava constatada e devidamente atestada.

Sorrisos bobos sibilavam de quando em vez às paisagens que passara a conhecer (com a segurança interna de um futuro retorno) e que outrora presenciara. Outrora atual e pregresso, muito pregresso, para além do estado físico, e talvez racional. O reconhecimento da vida atual se situou em constantes atestados de magia saudosa que me esclareceram a dúvida a qual, por ventura, ainda poderia pairar. Meu coração não pertence senão àqueles fragmentos constantes de alegria, luz e amor à natureza (que parece nos brindar, orquestralmente, com notas musicais constantes, em harmonias únicas).

Se a concepção de amor perfeito existir, a minha está lá, repousando em lembranças passadas e expectativas futuras, sempre à espera de sensações de completo desprendimento terreno. E se a felicidade é uma galeria de quadros pintados e ainda por preencher, meu marchand tem um gosto muito especial de persistir em me apresentar paisagens que j'aime. Et comme je les aime!  

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Sociedade autofágica

Van Diemen's land (U2): trilha sonora do texto.

Ser egoísta parte de princípios diferentes, de interpretações, muitas vezes, convenientes. Cuidar-se de si mesma (com pleonasmo exagerado) é egoísmo quando saímos da expectativa do outro. E o outro tem bastante expectativa com todos. A vida é feita disso, né? O desafio é nos livrarmos dessa teia venenosa de dependências emocionais. Porque tudo é levado para o lado emocional. É mais fácil seguir na onda dos incorretos do que contestá-los. 

E, desse jeito, a sociedade vai se adoentando e alimentando uma fome de infelicidades. Sociedade autofágica, tenho dito. 

O que leva alguém ao ciclo vicioso da má conduta? Caos? Caô? Cacos de uma vida miserável? E de qual miséria se devaneia? Política? Melódica? Imaginativa? Vingativa? Por entre os números de violência intrafegantes se delineia a desesperança de uma sociedade de valores flácidos. E não há botox, nem silicones que deem jeito a atitudes pérfidas e necromantes.

Se conhecerem alguns discípulos de Dr. Ivo Pitanguy das atitudes reais, por favor, não hesitem em indicá-los para a nossa sociedade. Quem sabe não ajudam a harmonizar um pouco esse turbulento cenário de guerras emocional e civil.


Meu grito

"Where the streets have no name" (U2): o meu grito em forma de música.

Meus músculos já não se contraem como antigamente. Daquelas contrações que despertam calafrios de esperança. Meus calafrios doem. Incomodam. E me fazem querer gritar forte. Com peito estufado e com uma voz grave que nem sabia, até há pouco tempo, que existia.

Minha fraqueza não reside em ver infelicidades, mas em me ver pessimista, com toques constantes de angústia e desapontamentos. Minha voz não se encaixa mais com os tons de outrora. 

Se costumava dar pulos constantes, hoje pulo situações da minha vida como quem pula canais de tv. Se gargalhava com qualquer ação, hoje inativa essa habilidade está. Se acreditava que a música poderia ser capaz de agregar pessoas de valores especiais, hoje caio na real. 

Sinto falta do tempo em que acreditava que ter uma rotina poderia ser algo bom. Mas a minha rotina me desgasta a ponto de rasgar meus nervos. Nervos que antes pareciam ser feitos de aço, desfiam-se em tiras cada vez mais frias de cor. O colorido dá lugar ao cinza sem graça.

Pessoas machucam. Constantemente. Pessoas violam outras pessoas. Reiteradamente. Pessoas se prestam a papéis de algozes dos seres que elas mais temem e desempenham isso magistralmente. 

O ar interno pesado ainda carrega gotículas de fôlego. Grito como quem merece liberdade de ser mais feliz. Liberto notas de grave que gravemente me fazem querer subir colinas, explorar desertos, afastar-me da escuridão e envenenar partículas de desumanidades espalhadas pelo mundo ao redor.

Quero correr. Cansei-me de deslizar sobre terrenos fracos e vazios. Esse caminho não merece os meus pés. Depois de quase 30 anos, aprendi que sou mais do que o que querem que eu seja. Sou mais do que me vejo. Eu grito, e meu grito atinge a alma que havia esquecido de despertar. A minha própria alma.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Meros menos humanos

Gritos constantes, raivas desconcertantes
Vísceras expostas, cuspes de sangue
Turbilhão de ideias desorganizadas
De quê adiantam?
Para quê tão frequentemente se adiantam?

Das etiquetas de grife que clamam por atenção
Às falhas humanas que se expõem
Sem risco de se desafortunarem
Ganham sentido de bons valores
Pura ilusão!

De destruição em destruição
Agressão em agressão
Sinto a pena sangrar
Em cada palavra a desgarrar da mente
Que mente para não lacrimejar

Enquanto corações amam dilacerar
Cérebros cercam a próxima vítima
Sem piedade, torcem por serem temidos
Odiados, odiosos e apodrecidos
Em marcha robótica a um futuro presente insuportável

Na terra que outrora brotava flor
Dor de fato passo a carregar

E mesmo que o fruto escasso do amor
Se desfaça em mil pedaços em meio ao chão
Sem adubo certo
Ou sem boa iluminação
Rezo, peço, penso
Que bom que tal mal
Tal pesado e cortante mal
Não atingiu a todos

Apenas aos muitos tolos
Que pensam serem mais que humanos
Quando, de fato, são menos humanos
Meros menos humanos
Cada vez mais, menos humanos

domingo, 10 de maio de 2015

Homenagem às canções (ou O desejo de aventuras e fartas emoções)

Canções
Tais provas de vivacidade
Pedem apenas ouvidos levemente atentos
Enquanto nos herdam horas, dias e memórias
Sempre prontas a nos despertar

Os sentimentos que se sacrificam por elas
Valem tanto a pena quanto a pena que rabisca lembranças carregadas
Por anos, séculos, milênios de paradoxo emocional
Tais notas em maior ou menor, em sustenido ou bemol
Sétimas, quintas e oitavadas
Que nos fazem carregar fardos
Ou abraços imaginários
Beijos vívidos
Lágrimas a causarem curtos circuitos internos
Nos levando, relevando e nos entregando a paixões
Imaginadas, vividas, cantadas
Postas em figuras aparentemente abstratas
Daquelas que sobem, pausam e descem
Em partituras ou cifras
Tentativas, enfim, de organizar aquilo que nos denuncia
Pelo sorriso tentado a se esconder
Pela maré ocular a escorrer
Pelo brilho eterno de se projetar numa canção

Em um mundo de sangue, carne, força e poder
Esquecemos da liberdade de escolher ser
Apenas por instantes
Preciosos instantes
Amantes, amigos,
Pais e filhos,
Pedras de gelo,
Mármores gelados,
Corações livres ou apertados,
Sorridentes ou careados,
Com direito a reincidências futuras

Afinal, para quê servem as canções
se não para serem repetidas até se impregnarem
em nossas hemácias, nervos ou leucócitos?
De sorrir ou de chorar
De pensar ou respirar
Canções podem nem ser soluções
Mas certamente nos herdam boas aventuras, fartas emoções


Um álbum que me despertou coragem a escrever o texto acima. 
Porque meus melhores estalos mentais vêm através de canções.
Stages, álbum recém-lançado, fez lembrar-me de uma das minhas maiores
inspirações como cantora: canções de musicais. 

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Cupcakes da discórdia

Sugestão de trilha sonora: versão de Somewhere only we know (do Keane), com Carrie Mac

Das coisas que vivi, lembro-me mais dos sorrisos que das quedas. Ando numa fase mais fechada para balanços positivos. Quem e o quê devem me interessar são as respostas que me preservam neurônios e não as que os queimam. Porém, a tarefa é árdua e incômoda. Pinçar espinhos fere e deixa arranhões. Falo do meu passado, meu presente e perspectivas futuras.

Não sei se contar pormenores vale a pena. Creio que não. Entretanto, exemplificar, mesmo que genericamente, facilita a compreensão do que vos falo.

Perguntaram-me, durante a semana, se tenho paciência para as pessoas cujo letramento está em nível bem desvantajoso em relação aos presentes na conversa. Minha resposta foi um sorriso. Afinal, pensei comigo, por que não teria paciência com quem precisa de ajuda e tem escassas condições sociais? 

Gosto de pessoas. Sobretudo das que prestam atenção no que falo e que me permitem escutá-la sem qualquer vínculo de avaliação constante e recíproca. Inclusive, neste meu blog, já falei em meu vício (impulso? mania, talvez? Não encontrei palavra que defina) em ser útil. Sobretudo, socialmente falando. 

Não frequento igrejas. Não gosto de me sentir presa a certas obrigações e proselitismos. Sem falsos moralismos, ok? E nem desrespeito quem o faz. Apenas uma escolha pessoal. Mas, apesar disso, aprendi, durante a caminhada, que me faz falta ser mais Endie e menos automática. 

Quando as pessoas que me conhecem falam o meu nome (em geral, tá? Não dá para ser unânime!), elas sorriem. Porque é isso o que, normalmente, transmito: sentimento bom. Autopromoção? Não. Reconhecimento de que meus anos de dedicação ao ato de ser mais humana, do desconhecido ao familiar, seguem valendo a pena.

Valores do bem estão enraizados em mim. Sejam eles cristãos, budistas, ou qualquer outra nomenclatura na qual acreditem. O que me importa, mesmo mesmo, é poder deitar minha cabeça no travesseiro todas as noites (ou na maioria delas) e dormir sem aquela sensação de que estou prejudicando alguém. 

Pegando carona nesse raciocínio, ratifico a ideia de que pessoas e suas histórias me atraem. Adoro escutar. Prestar atenção e dar feedbacks (sejam de sorrisos, palavras ou apenas olhares). Apetece-me ser humana. Só que está difícil. Por quê? Vejamos.

Valores subnutridos estão circulando em nossa sociedade. Subnutridos de amor, saúde e bem-estar. Tem muita coisa errada, invertida e violenta por aí. 

Não gosto de modismos. Não curto assuntos do tipo "todo mundo está fazendo isso". Primeiro que minha mãe me ensinou que eu não sou todo mundo (aliás, sábias mães que nos ensinaram isso). Segundo que não me acrescenta ser mais uma em meio ao padrão da vez. Quero ser reconhecida pelo o que faço de bom (seja na música, no sorriso ou em algum tipo de ajuda), não pelo o que visto, calço, como ou pago.

O texto não é indireta pra alguém. É direta para os alguéns que habitam o mundo e se esquecem de que todos iremos parar debaixo da terrinha lá do cemitério (ou em outro lugar em que as cinzas forem jogadas). Então, para quê me ferir com ferros e fogos sociais? De que adianta o que não me acrescenta?

Das esquinas por onde passei, andei encontrando mais amarguras que saúde. Doentes ambulantes de razão sofrível me provocam a ser mais feliz. Como? Sem fórmulas! Apenas desfrutando das pequenezes que perdemos de vista quando nos entortamos em direção a satisfações alheias. Fácil escapar das armadilhas sociais? Nadinha! Difícil é conciliar saúde e doença em mesmo ambiente. Contaminar-se é coisa de piscar de olhos. 

Perceba-se mais humano e menos padronizado. Ninguém precisa encaixar sua grande massa em fôrma de cupcake. Experimente apreciar pessoas. Conheça o que gosta (de verdade, não aquilo que alguma celebridade disse) e apaixone-se pela criatura que habita a sua massa. É muito bom sorrir para si mesmo e saber-se capaz de coisas maiores do que a (nada sã) filosofia das mentes enlatadas podem querer. 

domingo, 16 de novembro de 2014

Inominável

Sugestão de trilha sonora: Felicidade (Marcelo Jeneci)

Há surpresas que nos marcam sem palavras que a definam. Apenas sentimentos que tornam o peito apertado de lembranças iluminadas. Sejam pela beleza de seus simples encantos dos dias, pelas pisadas na praia que fixam mais do que areia sob os seus pés, pelos gostos do amor deixados no nhoque carinhoso e saboroso preparado pela mãe, pela evolução nas cantorias, pelo reencontro com pessoas que foram (e ainda o são) importantes em seus traços pessoais ou pelos sorrisos de constelação divididos com alguém agora querido.

Ideias traçam mais do que caráter. Elas são capazes de nos libertar de amarras sociais inúteis impostas pelo fato de ser humano. As consequências de nos guiarmos pelos pilotos automáticos que nos enchem diariamente os ouvidos escancarados são fatais para os corações alados. Imagine para aqueles musicais!

Por isso, vivo em constante redecoração interna de ideias. Porém, algo é pensá-las. Outra é presenciá-las. E, nas últimas duas semanas, foi isso o que me ocorreu. Fui ao encontro de uma ideia simples de um presente meu a quem me importa. Fui presenteada simplesmente com importâncias encontradas.

Apaixonei-me pelas representações de algumas ideias. De palco, de rumo e de batidas cardíacas. Pela luz (mais algumas vezes) enxergada em mim e pela própria falta de nome que a tudo isso se dá. Pela pura beleza de ser e sorrir em semibreves momentos.

Quando a realidade te embalar em sonho outrora esquecido ou desacreditado, levante e exponha os molares, caninos e incisivos. Insista em ter momentos felizes, pois é muito bom saber que, em meio a tantos gases lacrimogênios de ódio que nos circundam (e tentam nos sufocar), podemos ser bem surpreendidos em minutos e horas que compassam acordes harmônicos. Daqueles que nos deixam com ponta interna e firme de orgulho por vivê-los.

Por isso, convenço-me de sentir o aperto da saudade no abraço das boas lembranças. Um conforto paliativo, admito. Porém, pior seria se elas não houvessem existido. Agora, escuto novamente o concerto desses momentos que me garantiram notas sublimes refletidas em sorrisos internos de satisfação. Em simplesmente perceber-me suscetível à felicidade.

Sujeite-se a isso também. Verá que é inominável, praticamente inexplicável, mas sobretudo humano. Inesquecivelmente humano. :)